"Hoje eu quero voltar sozinha"
- Suzana Lopes
- 8 de jan.
- 3 min de leitura
Sobre a compulsão, a necessidade e a possibilidade de um relacionamento amoroso.

“Tudo o que poderia fazer seria oferecer-lhes uma opinião acerca de um aspecto insignificante: a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se pretende mesmo escrever ficção.”
As palavras que aqui cito fazem parte do ensaio clássico Um teto todo seu, escrito em 1929 pela escritora inglesa Virginia Woolf. Convidada a falar sobre o tema mulheres e ficção em uma universidade inglesa, Woolf inicia sua reflexão não a partir da escrita em si, mas das condições que a tornam possível.
Para que uma mulher pudesse se dedicar à escrita, ela elenca exigências concretas: dinheiro, formação intelectual, tempo, estímulo, reconhecimento social e, sobretudo, um espaço próprio - um cômodo onde fosse possível trabalhar sem interrupções. Antes de qualquer talento ou vocação, o que estava em jogo eram condições materiais e simbólicas de existência. É significativo que Woolf não trate essas condições como pano de fundo, mas como fundamento. Sem elas, não há propriamente escolha possível. Não se trata de vontade, mas de possibilidade.
Embora formulada com referência ao campo da escrita literária, essa reflexão toca em algo mais amplo. Ela diz respeito à maneira como as mulheres foram - e ainda são - autorizadas a existir no mundo. Tempo, espaço e dinheiro não operam apenas como meios materiais, nem garantem por si mesmos autonomia ou escolha; eles remetem à possibilidade de um lugar simbólico a partir do qual algo como o desejo possa se constituir. Quando esse lugar não está dado, ou não foi constituído - mesmo que parte das condições materiais existam -, não se trata propriamente de desejo, mas de arranjos possíveis, identificações e respostas às expectativas que organizam o campo do Outro.
É a partir desse ponto que a reflexão pode se deslocar para o campo dos relacionamentos amorosos.
Historicamente, para muitas mulheres, o relacionamento não ocupa apenas um lugar afetivo. Ele funciona como destino esperado, como garantia de reconhecimento, como espaço de pertencimento e, muitas vezes, como a forma socialmente legitimada de existir, assim como eixo sustentador da própria identidade. Não se trata de uma escolha entre outras possíveis, mas de uma via quase exclusiva. Não é raro que mulheres organizem decisões fundamentais a partir da expectativa de um relacionamento - não por escolha consciente, mas pela dificuldade de se imaginar existindo fora desse eixo, assim como por creditar terem fracassado, às vezes gravemente, se não o fizerem.
Quando não há um “teto todo seu” - material ou simbólico - o vínculo amoroso passa a sustentar aquilo que não encontrou lugar fora dele. O relacionamento oferece casa, nome, lugar social, organização do tempo e até certa autorização para desejar. Não porque o amor seja excessivo, mas porque outras formas de sustentação foram historicamente negadas ou permaneceram não realizadas.
Nesse sentido, a pergunta “por que ela não consegue ficar sozinha?” já nasce enviesada. Ela supõe que a solidão esteve disponível como possibilidade, quando talvez nunca tenha estado. O que muitas vezes aparece como compulsão ou necessidade pode ser lido, também, como efeito de uma constituição subjetiva marcada pela alienação. Dizer que uma mulher “só quer e só pensa em namorar” não descreve apenas um traço individual. Essa frase - tão comum, tão repetida - funciona como rótulo e como destino. Ela reduz, mas também revela: o relacionamento amoroso aparece como eixo organizador da vida, não por excesso de investimento, mas por falta de alternativas reconhecidas, por ausência de um espaço subjetivo sem constantes interrupções.
É nesse contexto que querer voltar sozinha pode soar como uma ideia nova. Não por radicalidade, mas por não encontrar previsão simbólica. Voltar sozinha raramente aparece como escolha legítima; costuma ser lida como falha, carência, falta ou recusa.
Ainda assim, isso não precisa ser entendido como recusa do amor. Pode se tratar apenas de um ensaio - ainda precário, ainda atravessado por culpa - de algo que pouco teve lugar: a possibilidade de estar só sem que isso implique perda de valor, de sentido ou de existência. Quando, para hoje, voltar sozinha seria uma possibilidade.
Se, como nos lembra Virginia Woolf, escrever exige um teto todo seu, viver também pode exigir. Amar, então, não precisaria ocupar o único lugar possível, mas um entre outros. A questão é que, para muitas mulheres, esses outros lugares nunca foram efetivamente oferecidos, conquistados ou realizados.
A questão, portanto, não é quando o relacionamento deixa de ser escolha. Mas, sim, se alguma vez, ele pôde sê-lo.



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