top of page

Os endereços do sofrimento

  • Foto do escritor: Suzana Lopes
    Suzana Lopes
  • 16 de jan.
  • 3 min de leitura

Para onde vão as cartas das dores humanas?





Há anos, ainda na época em que cursava a graduação em psicologia, tive a oportunidade de assistir à fala de um psicanalista em um evento da área. Ele abordou um trabalho realizado junto a uma equipe, em um país atravessado por uma situação de guerra. Entre os muitos impasses enfrentados, havia o caso de uma criança em condição particularmente difícil, diante da qual a equipe, apesar das tentativas, ainda não conseguia encontrar meios de auxílio.


Tratava-se de um menino que havia perdido o controle dos esfíncteres urinários e estava constantemente “fazendo xixi” nas calças. Era sabido que ele havia perdido seus familiares nos conflitos da guerra. Em determinado momento, a equipe entrou em contato com um dito popular daquele país que dizia: “Quando se está muito triste, até o ventre chora.”


Foi a partir dessa expressão que se tornou possível abrir uma porta - ainda que parcial - de vínculo e de cuidado. O sofrimento daquele menino encontrava no corpo um modo de se dizer: perdas e tristezas grandes demais para serem carregadas, que escorriam e choravam pelo ventre.


Quando o ventre chora: o sofrimento que não encontra palavras


A depender da cultura, da época, da história, da tradição familiar e do convívio social, o sofrimento pode encontrar diferentes formas de expressão. Muitas vezes, ele surge de modo disfarçado, metafórico, desviado ou silenciado. Em contextos nos quais o mal-estar é entendido como resultado de uma “cabeça desocupada”, da falta do que fazer, ou como algo que se resolveria com trabalho e força de vontade, o sofrimento tende a ser comprimido e deslocado, encontrando saída no corpo, no adoecimento ou em formas menos reconhecíveis.


Em muitos cenários, não se trata exatamente de ignorar o sofrimento, mas de relativizá-lo. Aprende-se cedo que certas dores não merecem atenção: “não é nada”, “vai passar”, “há quem sofra mais”. Aos poucos, algumas experiências deixam de encontrar escuta e passam a ser guardadas, desviadas ou caladas.


Aprendendo a calar a própria dor


Essa dinâmica não opera apenas “de fora”; ela pode ser incorporada, tornando-se íntima e próxima. A pessoa aprende não só a minimizar a própria dor, mas a se envergonhar dela. Sofrer passa a ser vivido como fraqueza, exagero ou falha pessoal - algo que não deveria existir. Cria-se a exigência de estar bem, de não incomodar, de sempre seguir em frente. E, nesse movimento, algo da própria experiência vai ficando à margem, pouco nomeado, pouco reconhecido, como se não fosse legítimo o suficiente para ser vivido.


Em alguns momentos, o efeito não é apenas o silenciamento, mas um certo afastamento de si. A vida segue, os compromissos são cumpridos, mas algo do que se sente permanece desconhecido. O sujeito segue embotado, não por falta de sensibilidade, mas porque nunca houve espaço para escutar o que se passa. Forma-se um mal-estar difuso, difícil de localizar, como se a pessoa não soubesse exatamente o que lhe acontece - ou mesmo que não sabe.


Em outras situações, a experiência não se organiza nem como repressão, nem como silenciamento aprendido. Há acontecimentos dolorosos demais, abruptos demais, para os quais faltam recursos de expressão. Nesses casos, não se trata de não querer falar, mas de não saber como. A palavra não foi recusada; ela ainda não pôde se formar. Algo permanece suspenso, sem nome e sem contorno, à espera de tempo, condições e, muitas vezes, da presença de um outro que possa sustentar esse processo.


Um espaço para que a palavra exista


Fala-se muito hoje sobre saúde mental - diagnósticos, campanhas, informações - e, ainda assim, são raros os espaços onde alguém pode falar sem ser interrompido, aconselhado ou corrigido. Há também a crítica de que a psicologia e a psicanálise podem individualizar e privatizar o sofrimento, como se escutar alguém fosse retirar a dor do mundo e colocá-la entre quatro paredes, de modo pago. Para muitas pessoas, no entanto, a experiência, infelizmente, pode ser um tanto diferente: nunca houve antes um espaço onde a palavra pudesse existir. Nunca houve laço, tempo, silêncio ou alguém que sustentasse a escuta sem exigir respostas ou conclusões.


Talvez seja por isso que possa ser tão significativo que, ao menos uma vez na vida, alguém seja escutado por um profissional. Não porque ali o sofrimento se resolva, nem porque deixe de ser atravessado pela história, pela cultura ou pelas condições sociais, mas porque, por um momento, a experiência não precisa se defender para existir.


Se o sofrimento insiste em escrever cartas, a pergunta permanece: a quem elas chegam? Que endereços ainda existem - ou precisam ser inventados - para que a dor humana não precise se esconder, nem se provar?

Comentários


bottom of page