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Quando a herança se torna dívida

  • Foto do escritor: Suzana Lopes
    Suzana Lopes
  • 20 de jan.
  • 2 min de leitura

Sobre o peso do que se herda e a dificuldade de escolher.





Todo ser humano recebe uma herança. Às vezes, ela vem como um nome importante, um patrimônio, uma história já escrita antes mesmo do nascimento. Outras vezes, chega como silêncio, ausência de palavras, falta de um lugar simbólico onde se possa existir com algum amparo. Toda vida começa a partir de algo que a antecede.


O que varia não é o fato de herdar, mas o modo como o que foi transmitido pesa. Há heranças que organizam, que oferecem um chão mínimo com espaços e aberturas, a partir do qual o sujeito pode se mover, errar, escolher. E há outras que se impõem como peso, ou mesmo como dívida: exigências mudas de continuidade, algo que precisa ser sustentado antes mesmo de poder ser interrogado.


Quando a herança pesa demais, a vida pode até seguir seu curso. Há estudos, trabalho, relações, decisões aparentemente corretas. Do lado de fora, tudo funciona. Mas o movimento se torna difícil. Não por falta de possibilidades, e sim porque qualquer deslocamento parece ameaçar algo que não se pode perder - ainda que nunca tenha sido propriamente escolhido.


Nessas condições, o mal-estar raramente aparece como conflito evidente. Ele se apresenta de forma mais discreta: no cansaço sem causa, na dificuldade de desejar, na sensação de estar sempre respondendo a uma expectativa que nunca foi formulada em palavras. Vive-se uma vida que já estava em andamento antes que se pudesse perguntar se ela era, de fato, própria.


É comum que esse tipo de sofrimento seja rapidamente silenciado ou desqualificado - sobretudo quando se trata de alguém que “tem tudo”, ou cuja trajetória parece bem determinada e assentada. Mas não se trata, exatamente, de ingratidão. Trata-se da diferença entre receber uma estrutura e ter sido encontrado como sujeito. Nem tudo o que é transmitido pode ser apropriado. Nem tudo o que sustenta uma vida permite que ela seja, de fato, habitada.


Há pessoas que vivem como quem administra uma herança: cuidam, preservam, mantêm em funcionamento algo que não sentem como seu. A vida segue, eficiente e regular, como uma máquina em pleno funcionamento, embora o lugar de quem poderia conduzi-la permaneça desocupado. Tudo opera - mas não há quem conduza.


Quando a herança se torna dívida, a pergunta sobre o próprio mal-estar tende a ficar suspensa. Questionar demais parece perigoso. Escolher de outro modo soa como traição. O sujeito segue, então, sustentando uma vida que não fracassa, mas tampouco se inaugura.


É nesse ponto que algumas pessoas procuram análise. Não para se livrar do que receberam, nem para reescrever o passado, mas para criar um espaço onde aquilo que foi herdado possa, finalmente, ser interrogado. Onde a herança deixe de funcionar apenas como destino e possa, pouco a pouco, transformar-se em matéria de escolha.


Talvez seja disso que se trate, enfim: da possibilidade de deslocar-se de uma vida vivida como obrigação para uma vida que, ainda que atravessada por limites, possa ser reconhecida como própria.


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